Razöes do Näo

No próximo referendo sobre o aborto votaremos Näo. Aqui se tenta explicar porquê.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Diário da Campanha (I)

Alexandre Quintanilha, doutorado em Física e biólogo em Berkeley, diz que o espermatozóide e o óvulo também são vida humana.
Eu, com a biologia do Secundário, permito-me um reparo.
Os dedos que teclam este post também são vida humana. Mas deixarão de ser se forem separados do corpo ou o corpo morrer. O mesmo se passa com o espermatozóide e o óvulo.
O embrião, o feto, é diferente. Tem uma vida independente. Precisa da mãe, como os bebés nascidos precisam. Quanto ao resto, está lá tudo o que é necessário para se tornar um ser humano adulto e independente. O espermatozóide, o óvulo e os meus dedos não têm essa capacidade. Nunca poderão, por exemplo, estudar em Berkeley.

11 Comments:

Anonymous luis v said...

Quer dizer que se separar o embrião da mulher não há problema porque ele tem uma vida independente? :)

Os espermatozóides e os óvulos também poderão estudar em Berkeley. É só questão de se cruzarem e darem origem a um zigoto que mais tarde se tornará uma pessoa que acabará... como operário. Tem razão, nunca irão para Berkeley.

O mais engraçado é não conseguirem encontrar uma diferença significativa entre os espermatozóides, os óvulos e os embriões. Vocês próprios tanto insistem que a vida é um contínuo e depois esquecem-se do que está a montante.

1:30 da tarde  
Blogger Manuel said...

Esse argumento do senhor doutor Quintanilha é muito repetido por gente com credenciais científicas. Lembro-me de o ouvir, noutras circunstâncias, ao senhor doutor Mariano Gago. Sempre me pareceu surrealista!
Parece-me tão óbvio o que dizes, que devia dispensar mais argumentação. O argumento aduzido por estes senhores doutores é de uma imensa desonestidade intelectual. Eles bem sabem que um óvulo ou um espermatozóide, se não se juntarem um ao outro para formar o zigoto, não dão origem a nada. E que - Oh! Diferença fundamental - a partir do momento da fecundação se dá início a um processo que, se não for interrompido, só terminará na morte natural do indivíduo. E que, desde o início desse processo, está reunido todo o potencial necessário a uma nova vida humana. O que não acontece, obviamente, no caso de um espermatozóide isolado, de um óvulo isolado, ou de uma célulazinha do meu dedo grande do pé...
Mas, claro, em tempo de enganar pacóvios, tudo serve...

2:01 da tarde  
Blogger CA said...

A questão do início da vida não é simples. Pode acontecer muita coisa nos primeiros dias. Dois zigotos podem juntar-se e dar uma única pessoa com dois códigos genéticos diferentes. Ou um único zigoto pode dividir-se em dois gémeos.

Mesmo a celulazinha pode ter alguma esperança: se o seu DNA for introduzido num óvulo, substituindo o material genético original, sendo depois o óvulo correctamente estimulado, será o DNA dessa celulazinha que dará origem a uma pessoa clonada que poderá pelo menos vir a ser estudada em Berkeley e, quem sabe, até vir a estudar lá.

3:47 da tarde  
Blogger Manuel said...

CA,

Tudo isso é verdade. E tudo isso implica, necessariamente, dar inicio, de forma natural ou artificial, ao tal processo... e a partir daí, há uma diferença qualitativa significativa. Ou não?

4:22 da tarde  
Blogger CA said...

Há uma diferença qualitativa mas não significa que estejamos perante uma pessoa humana. Até porque o tal "início" no processo natural dura 20 ou 30 horas e é um contínuo onde não existe nenhum momento óbvio que se possa definir como chave.

Penso que esta discussão do momento do início da vida e da personalização do zigoto não é a forma mais adequada de combater o aborto e remete para questões razoavelmente diferentes. Querer combater o aborto tratando o zigoto como pessoa é radicalizar posições, o que só facilita a vida ao sim.

5:00 da tarde  
Anonymous La Carbonara said...

E o que o Alexandre Qintanilha refere tem que ver com a questão da continuidade do processo biológico terrestre e a difícil questão da individuação dentro de cada espécie. Ao contrário do senso comum bacoco de quem lhe chama pacóvio e pensa rebater as suas dúvidas científicas e filosóficas com três ou quatro argumentos acerca da identidade humana na sua singularidade, este senhor tem um trabalho público duma profunda e alargada honestidade e dialogalidade.

Mas o que interessa agora é fazer campanha, claro. Atacar quem seja pelo "sim", e nunca referir as "pacoviadas" de parceiros do "não" (no caso deste blog, invirta-se a posição quando a campanha é pelo "sim"... )

Enfim...

5:07 da tarde  
Blogger Manuel said...

CA,

Aceito o que dizes. Não me parece fundamental essa discussão do "momento" exacto em que começa a vida. Parece-me que esse começo deve ter por referência a concepção, independentemente agora de ser à hora primeira ou sétima desse processo. E quanto a isso, pouco posso acrescentar. Não era essa a questão a que me referia, mas a uma amplificação propositada, e a meu ver desonesta, dessa indefinição inicial. Uma coisa é ter essas dúvidas que referes; outra é estender a dúvida e baralhar conceitos para que o propósito de liberalizar nas primeiras dez semanas seja envolto nessa nebulosa indefinição do começo da vida...

5:55 da tarde  
Blogger Manuel said...

Caro (a) la carbonara,

1º: Não chamei pacóvio ao senhor Quintanilha. Vá ler o que escrevi...

2º: Não duvido dos seus méritos científicos.

3º: O que mais há por aí são "pacoviadas" de defensores do não. Se pensa que estar de um lado ou de outro neste referendo é pertencer a uma categoria homogénea, que lhe posso dizer? Que não concordo. Eu responsabilizo-me pelo que digo. Pelas palavras de outros, eles que se cheguem à frente. Ou subscreve tudo o que tem sido dito por todos os defensores do SIM? Parece-me que não...

6:01 da tarde  
Anonymous La Carbonara said...

Quem tenta enganar pacóvios, é pacóvio, ou pior. Releia você o que escreveu, que raio.

Não subscrevo nem de um lado nem de outro, per si.

Mas subscrevo as dúvidas do Quintanilha. Os defensores da identidade plena embrionária, ao usar o código genético (a noção de alma perdeu a sua universalidade razoável, é apenas por isso, trata-se duma pura estratégia de imposição duma metafísica do sujeito disfarçada de cientificidade, ao contrário do Qintanilha que tenta esclarecer honestamente os pacóvios como eu, acerca das noções da biologia contemporânea) metem-se em sarilhos conceptuais e práticos completamente absurdos.

Mas isso não interessa, não é?... Há que repetir directa ou indirectamente que o embrião é uma pessoa equivalente a um ser humano com os orgãos formados. Pelo menos até ao referendo. Passo a passo, desinformação a desinformação, lá se vai conduzindo e massificando a maralha...

E já agora, eu integro na minha visão uma metafísica do sujeito (penso até que sem ela, os direitos humanos vão por água abaixo perante um utilitarismo social e natural do mundo e da espécie). Detesto é estratégias de comunicação que não têm como princípio e fim a libertação e esclarecimento das pessoas a que se dirigem, mas tão só convencê-las de algo - e que seja a comprar um electrodoméstico ou aderir a uma tese (mesmo que seja aquela a que eu adiro) tanto me faz... É uma questão de metafísica, ou se preferir, de ética da veracidade numa dialogalidade livre.

6:22 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Constituição da República Portuguesa
Artigo 26.º
(Outros direitos pessoais)

1. A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação.

2. A lei estabelecerá garantias efectivas contra a obtenção e utilização abusivas, ou contrárias à dignidade humana, de informações relativas às pessoas e famílias.


3. A lei garantirá a dignidade pessoal e a identidade genética do ser humano, nomeadamente na criação, desenvolvimento e utilização das tecnologias e na experimentação científica.



4. A privação da cidadania e as restrições à capacidade civil só podem efectuar-se nos casos e termos previstos na lei, não podendo ter como fundamento motivos políticos.

(fonte Portal do governo)

http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Portugal/Sistema_Politico/Constituicao/constituicao_p03.htm

Nota: o código genético é único em cada ser mesmo logo após a fecundação, no zigoto, no feto e por ai fora... os gâmetas (espermatozóide e óvulo) têm 1/2n cromossomas enquanto que a morula, o zigoto ou o feto Têm n cromossomas. Só os seres humanos têm 23 pares de cromossomas.

7:58 da tarde  
Blogger Manuel said...

La Carbonara,

Talvez eu me tenha expressado de uma forma demasiado exaltada. Peço desculpa pelas formas. O que pretendia dizer, e reafirmo, é que, em meu modesto entender e de acordo com sólida informação científica disponível, o momento referencial de início da vida humana é a concepção. Não está em discussão o facto de ser um processo contínuo e não um "instante". Apenas quer dizer o que o senso comum percebe muito bem: o princípio da vida começa no início...
Isto não tem nada a ver com metafísica. Nem com alma. Nem com fé de qualquer espécie. E o código genético não é substituto de nada. Mas é um elemento importante e significativo. Que deve ser considerado. Não me atribua raciocínios que nunca me ocorreram.
Isto quer simplesmente dizer que esse facto deve ser considerado à hora de ponderar legislar sobre intervenções nesse "processo".

8:07 da tarde  

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